Conheça Folkways, o selo que eternizou o folk americano.

Lançada em 1948, assim que o long-play de vinil surgiu, a Folkways tornou-se uma das maiores e mais influentes companhias de discos independentes, montando um sólido catálogo de música folk, palavra falada e material documental.

O selo foi ideia de Moses Asch, que já havia gravado cantores folk como Burl Ives, Woody Guthrie, Lead Belly e Pete Seeger para Asch Records, antes que a empresa entrasse em dificuldades financeiras. Todos os lançamentos do selo Asch foram em 78 rpm, mas quando o long-play entrou em cena o empresário o vislumbrou como um formato mais adequado ao material que queria gravar. Mandou sua secretária, Marian Distler, criar uma nova companhia em nome dela, driblando sua própria falência, e lançou a Folkways, dedicada a documentar o folk e os registros orais do mundo todo.

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A companhia gravava material diversificado, como música cubana, nativos americanos e jazz, mas seu foco era a folk music, e ela teve também papel importante no revival do folk e do blues, iniciado no começo da década de 1950. Além de imortalizar em álbum pela primeira vez nomes como Guthrie, Lead Belly e Seeger, a Folkways foi fundamental na redescoberta de representantes seminais do blues, como Lightnin’ Hopkins, Sony Terry e Brownie McGhee, além do pianista de boogie Speckled Red.

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Um lançamento marcante foram os seis LPs da Anthology of American Folk Music (1952). Compilada pelo cineasta e colecionador de folclore Harry Smith, a caixa continha 84 gravações de folk, country e blues que haviam sido originalmente lançadas em 78 rpm entre 1927 e 1932. A compilação foi uma sensação. Ela apresentava o trabalho de artistas importantes – muitos deles pela primeira vez –  e inspirou uma nova geração de músicos, como Joan Baez, Phil Ochs e Bob Dylan.

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Entre os 2.168 lançamentos antes da morte de Asch em 1986, houve outra coleção inspiradora em 1959: The Country Blues. Tratava-se de outro lote de gravações que haviam sido lançadas em 78 rpm nas décadas de 1920 e 1930, e suas catorze faixas traziam interpretações de artistas como Blind Willie McTell, Bukka White e o lendário Robert Johnson, que no fim dos anos 1950 era um nome praticamente esquecido, ainda a ser redescoberto pelos apreciadores de blues. (Entre os que prestaram atenção a essa coleção de blues estava o Led Zeppelin, cuja versão de “Gallows Pole” – uma canção folk que datava de vários séculos antes – foi inspirada pela gravação de Fred Gerlach lançada pela Folkways. Gerlach, por sua vez, se inspirou em uma versão de Lead Belly).

Sob a direção de Asch, a Folkways estava à frente de seu tempo ao valorizar aquilo que mais tarde seria rotulado como world music. Outro feito marcante da gravadora foi a coleção Music of the World’s People, uma série de long-plays lançados a partir de 1951, com material de locais tão distantes quanto Islândia, Coreia, Madagascar, Rússia e Tibete.

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Em 1964, o selo firmou acordo de distribuição com a Verve, criando a Verve Folkways (mais tarde Verve Forecast), embora a companhia-matriz continuasse a seguir por uma trilha desafiadoramente pouco comercial. Um disco de sucesso, dizia Asch, “seria o fim da Folkways”.

Quando Moses Asch morreu, em 1986, o Smithsonian Institution adquiriu a Folkways. Isso representou um reconhecimento oficial do inestimável arquivo que o selo havia acumulado em vinil por mais de quarenta anos, documentando a cultura musical dos Estados Unidos em particular, bem como a de muitas outras partes do mundo. Como observou o biógrafo de Asch, Tony Olmstead, “o catálogo da Folkways mostra o que é possível fazer quando a visão, a engenhosidade e a criatividade se juntam(…). A Folkways ditou o padrão em termos da gama de sonoridades que preservou, além de firmar o conceito de que o som não tem sentido na ausência de um contexto. O pacote inteiro – não só define a Folkways, mas estabeleceu um padrão para qualquer outra companhia que queira se esforçar para preservar alguns dos sons do mundo”.

 

Fonte: Vinil – A arte de fazer discos.

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